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terça-feira, 25 de maio de 2010

Educação e TV

Televisão, jornalismo e educação.


Dá para cruzar?

Patricia Portela



Jornalista. Mestranda em Comunicação/UFBA







Apaixonada assumida pela televisão - esse veículo fantástico que abre as janelas desse mundo e de outros para você - , torna-se complicada para mim, a tarefa de escolher um determinado programa de TV para analisá-lo, seja sob que ângulo for. Não comungo com a corrente que insiste em culpá-la pelos males que enfrentamos nesse final de milênio, apesar de achar que, como diriam os francêses, uma boa "higienização" na sua programação não faria mal a nínguém. Que viva a TV Cultura, por ter conseguido aliar conteúdo e forma em alguns dos seus programas, sem que caíssemos nos monótonos e sonolentos programas ditos "educativos", que podem seduzir professores, educadores, psicólogos e intelectuais, menos o grande público - objeto de desejo de qualquer veículo de massa. Alguns bons resultados da TV Cultura podem ser conferidos na Bahia, através das retransmissões da TVE. Vale ressaltar que a TV Cultura é uma fundação e, portanto, ao contrário da nossa TVE, é um veículo "independente" do Estado, que já tem sua mecânica e verbas próprias. Lá, profissionais têm coragem e respaldo político e econômico para ousar. Entretanto, não podemos cair no reducionismo, acreditando que a política é a grande vilã que imperra a criatividade na produção televisiva local, seja educativa ou não.



Infelizmente, o pique da vida moderna ou pós-moderna ou da era da cibernética, não me permite acompanhar a programação televisiva como gostaria.... tipo sessão da tarde com pipoca... Rever as grandes produções hollywoodianas, novelas romanceadas, seriados água-com-açucar (como Mel Rose, Barrados no Baile ou qualquer outro americanóide) ou mesmo um bom talk-show vespertino para relaxar e esquecer os pequenos contratempos que enfrentamos diariamente, envolvendo-me com questões que fazem parte ou não do meu dia-a-dia. Alías, quero registrar aqui, a incrível capacidade que os enlatados americanos têm de fazer com que a gente não pense em absolutamente nada e, ainda assim, nos mantêm ligadinnhos na telinha. Mas vamos deixar de nariz de cêra e partir para a nobre tarefa de analisar um determinado programa.



Por razões óbvias (a de ser jornalista! Alías estou adorando escrever na primeira pessoa e usar exclamações sem culpa nenhuma), atacarei um telejornal de uma das maiores emissoras da televisão brasileira - o SBT. Descartei o jornal Nacional por considerá-lo analisado demais tanto pela academia como por partidos políticos, sindicatos e o próprio público em geral. Ressalto apenas que, apesar dos olhinhos caídos e das rugas de Cid Moreira, o telejornal da TV Globo ainda mexe e remexe na sociedade brasileira, com a mesma intenção de manipular a informação de quando surgiu, quando o Banco Nacional patrocinava o programa - seguindo a mesma idéia de patrocínio do bem-sucedido Repórter Esso. Acabou-se a didadura, mas a Vênus Platinada continuou fazendo acordos e conchaves com os detentores do poder, vivenciando a redemocratização brasileira no mesmo compasso que os políticos.



Bom, dentro desse padrão Globo de se fazer jornalismo, onde o Jornal Nacional impunha regras (até hoje não superadas) e normas que íam desde a exigência do sotaque sulista do repórter à informação induzida e direcionada da emissora, surge uma outra forma de levar as notícias do dia ao telespectador do horário nobre da televisão brasileira.



Para competir com os bem-penteados, "belos" e cheirosos âncoras do Jornal Nacional, aparece um velho conhecido do jornalismo impresso tupiniquim, com um rosto simpático e um jeito de falar diferente (meio boca mole), metendo o bedêlho em todas as notícias que a emissora divulgava. Nascia então o TJ Brasil e seu editor-chefe, apresentador e comentarista Bóris Casoy, o nosso vovô Bóris, que mesmo sustentando um nome russo, dizem às más línguas que teria vinculações com a chamada direita. Em entrevista concedida à Imprensa ele nega as acusações baseado em fortes argumentos. Mas, isso não vem ao caso.



Com o TJ Brasil, as notícias ficaram mais leves e os repórteres apresentavam maior proximidade com o âncora. A preocupação com o conteúdo da matéria superava sua forma. Começou-se a fazer jornalismo analítico também através dos repórteres e não somente pelas vozes dos editores-chefes ou editores setoristas que permaneciam intactos nos estúdios comentando os fatos que o repórter foi ao campo garimpar.



Além do caráter inovador, esse telejornal prima também pela qualidade da informação, na tentativa de se fazer um jornalismo sério e ético (se é que é possível). Digo, na tentativa, porque fica difícil manter-se imune aos tentáculos do dono da emissora, o empresário Sílvio Santos, que aparece no cenário político brasileiro como um sempre provável candidato à alguma coisa. Mas, mesmo assim, Casoy vai seguindo sua linha, divulgando notícias, participando diretamente de importantes momentos da vida nacional e, inclusive, abrindo espaços para entrevistas ao vivo com políticos e notáveis nos sissudos estúdios dos telejornais dos horários nobres, inclusive, entrevistando, personalidades fora do eixo Rio-São Paulo- Brasília.



Críticas? O âncora principal do SBT acaba tecendo comentários demais acerca das matérias, confundindo um pouco o trabalho dos repórteres e induzindo o telespectador à certos conceitos e pré-conceitos sobre diversos assuntos de interesse nacional, principalmente políticos. Num determinado momento (na época do empeachment e da CPI do Orçamento), todos queriam passar o Brasil a limpo e todos sabiam que "isto era uma vergonha". Mas a repetição constante dos mesmos clichês chegou a cansar o público. Até eu, confessadamente seduzida pelos trejeitos, caras e bocas do nobre apresentador, me peguei pedindo para ele não repetir determinadas frases. Pior mesmo, foi constatar que alguns apresentadores dos telejornais locais acabaram seguindo o mesmo estilo, sem a metade do seu charme. A cópia é sempre pior que o original. Lembro-me agora de uma apresentadora local que sempre fecha suas entrevistas com duas perguntas: E o coração? E o pé de meia? Cadê a criatividade? Cerébro também foi feito para suar!



Voltanto ao nosso objeto deste artigo, costatei que diversas vezes, a tão almejada imparcialidade jornalística ficou comprometida com as idéias do senhor Casoy. Arcaicas ou não, sua opinião acabava fechando a matéria com uma mensagem pronta e acabada, sem dar ao telespectador a amplitude necessária para a reflexão. Será que essa imparcialidade não passa de um mito? Pode ser, mas o fato é o fato e, se o buraco da rua foi aberto pela Prefeitura ou pela Embasa ou se tinham duas mil ou dez pessoas em um determinado evento são fatos que não podem ser violados, apesar de saber que para um fato existem diversas versões. Que o diga Kurosawa em um de seus belos filmes, onde várias pessoas narram um assassinato de uma maneira e, no final, o morto reaparece e não é nada daquilo, ou melhor, todas as narrações eram verdadeiras, apenas vistas de ângulo diferentes. Mas, jornalismo é jornalismo e, os profissionais da área têm a obrigação de fazê-lo de forma ética, tentando mostrar os mil e um lados da mesma moeda.



O que tudo isso tem a ver com educação? Tudo! Não há educação via TV, rádio ou jornal, enquanto a informação correta, precisa e verdadeira não for veiculada. Enquanto não tivermos um telejornalismo ético e que priorize os dados informativos em detrimento da posição política de cada emissora de TV, ficará difícil falarmos em educação via televisão. Certo? Telejornal não pode virar diário oficial de determinados governos ou grupos empresariais. Notícia questionada, analisada e pensada induz o telespectador a uma reflexão. E dá para pensar em educação sem reflexão? Portanto, precisamos urgente de um diretor capaz de concretizar essas três formas de amar: televisão, jornalismo e educação. Todas mexem com a mais pura emoção humana!

Fonte:
http://www.faced.ufba.br/~pretto/edc708/sem941/num_0/pati.htm

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